domingo, 18 de maio de 2014

terra firme.

Invoco o medo de te perder por entre desafogos e suspiros. Não para que temas, só para que saibas que até terra firme desaba quando alagada por água pérfida.
A tua essência é a minha ciência, não que a partir dela experimente, só para que a partir dela estude, a forma mais pura e fiel para chegar ao teu coração, meu inquilino.
Ingrato amor, tão impossível de materializar, inexplicavelmente profundo, inumerável, infinitamente grande capaz de mostrar que o Espaço é um espaço limitado, por nem lá, nem em nenhum outro lugar caber.
Terra firme que me segura, embala e adormece. Terra firme que me suporta, sustenta e levita.
Terra firme, amor, e mesmo desabando jamais se evapora ou dissipa. Por lá fica, se caso, construirmos de novo.
Eternamente condómina deste nosso amor, acredito que há histórias sem finais felizes. Há histórias que simplesmente estão destinadas a não ter final. A nossa.

sábado, 17 de maio de 2014

em mim.

Em mim guardo tudo o que construiu a minha própria pessoa.
Não há uma só pessoa que eu esqueça, que eu não agradeça, pelo bom ou pelo mau. Pelas lágrimas ou pelos sorrisos. Desde quem me ensinou a ser eu, até quem me incentivou a não sê-lo. Desde os exemplos às influências. Desde o tudo que se demonstrou nada, ao nada que passo a passo construiu tudo.
Na vida não há nada que tenha perdido. Ganhei em tudo. Sou uma vencedora nata, porque até nas derrotas encontro conhecimento, e esse sim, o meu maior troféu.
Em mim trago um pouco de todos. Trago quem me faz tão bem e quem pior me fez, trago as pessoas que amo, trago os que me desconfortam, trago os que me magoaram e também aqueles que magoei.
Trago os grandes atos que fiz consequentes de erros que fizeram de mim pequena. Não há nada que se compare há dor de fazer alguém sofrer. Pior que carregar a minha dor causada por ti, só carregar a tua dor causada por mim.
Em mim guardo todos os sonhos que me definem. Há uns que já alcancei. Outros que hei-de alcançar. Outros que simplesmente se manterão para o resto da vida.
A quem passar por mim nesta vida, só quero que levem consigo um pouco de mim. Nem que seja só um pouco, pequenino.

sábado, 10 de maio de 2014

existir.

O passar do tempo não me assusta, assusta-me o seu parar. E se ele me para, eu por lá fico, na incerteza do voltar a existir depois. 
Há medos que me domam, que me rompem a pele, que em disfarço me desfazem e me geram uma vontade, ainda maior, de existir.
São golpes que me fazem viver sob o leito maior do rio, à espera que ele me inunde ou que decida deixar-me em seco, segura. Talvez um dia daqui me liberte, até lá tenho medo, da falta do existir, da incapacidade de preencher um lugar vazio. 
E se o eterno for efémero?

terça-feira, 6 de maio de 2014

felicidade?

O percurso é igual à tanto tempo. Já conheço as vistas e as estações de cor, até já conheço as rotinas de algumas pessoas, tanto que por vezes, se alguns a quebram durante uns dias fico a pensar no que se possa ter passado. Nada em comum a não ser o mesmo comboio e o mesmo destino. 
Hoje, numa habitual paragem estava tudo normal como sempre, mas quando olhei lá para fora vi uma rapariga, jovem, elegante e bonita que tinha a particularidade de não poder ver nada daquilo que nos rodeia. 
Podia ter sido só mais uma pessoa entre as dezenas que passam por mim todos os dias, mas não foi. Esta fez o meu dia.
Ela estava a sorrir, genuinamente. Estava a caminhar sozinha e a sorrir, não para alguém ou algo, simplesmente para a vida.
Passamos metade da vida a pensar no que nos fará mais felizes, passamos metade da vida a dizer que "se tiver isto", "se acabar isto", "se fizer isto", "se ganhar isto" vou ser uma pessoa mais feliz. Passamos metade da vida a planear um futuro feliz, planeamos hoje o nosso futuro daqui a 10 anos e daqui a 10 anos fazemos planos para os próximos 10. Passamos metade da vida a construir um caminho que eventualmente nos levará à felicidade, e nesse hiato entre o plano e a concretização esquecemos-nos de sorrir, de viver, de sermos verdadeiramente felizes.
Perguntei-me como seria a minha vida se eu não pudesse ver as paisagens que me levitam a alma, como seria se eu não pudesse ver o cruzamento entre o céu e o mar, como seria se eu não pudesse ver o sorriso do homem que amo.
Começaram os pensamentos a atropelarem-se-me uns aos outros. Se aquela rapariga pensasse sempre em todos esses se's certamente não estaria a sorrir da forma que estava.
A felicidade é um dos temas que eu mais tenho debatido comigo própria nas últimas semanas, em silêncio penso e mergulho nesses pensamentos. Em casa, sozinha, vejo documentários, leio livros e textos à cerca desse mesmo assunto. Penso, reflicto, oiço, leio, analiso e estudo até chegar à percepção.
Eu passo metade da vida a lamentar-me e a outra metade a ouvir os lamentos dos outros.
Sou feliz com o que tenho mas há acontecimentos que me incomodam, que me roubam a disposição. Depois vou para a escola e oiço os se's dos meus colegas, em casa oiço os se's da minha mãe e as pessoas mais próximas de mim ouvem os meus. 
Houve um dia que me disseram para não me queixar tanto, eu fiz o que faço sempre, primeiro resisti mas depois comecei a pensar.
Se eu passar a vida a planear a altura que serei feliz, a minha vida não vai ter nem metade da emoção que eu pretendia.
Felicidade é um estado de espírito, não é uma ocasião, não é um momento, não é uma situação nem uma pessoa, muito menos um sentimento, felicidade é um estado de espírito que só cada um de nós pode impor a si mesmo.
Eu sempre fui feliz, mas pergunto-me quantas vezes sorri para a vida, só porque sim, como aquela rapariga cega.
Aí apercebo-me que felicidade só está ao alcance dos mais inteligentes. Os outros, ficarão a vida inteira a construir um possível final feliz.

domingo, 4 de maio de 2014

a ti te escrevo.

Escrevo-te, para que me lembres, nas horas vagas, quando o vazio preencher o teu quarto e a voz do teu pensamento te silenciar.
Escrevo-te, para que me recordes, em horas vagas, quando a casa estiver cheia e ao mesmo tempo tão vazia de mim, e quando o tempo percorrer os minutos e no final das horas não me encontrares.
Escrevo-te para que guardes, em ti, o cheiro de cada perfume meu, o aroma do meu cabelo, o sabor de cada beijo, a harmonia de cada sorriso, a sensação de cada toque, a melodia de cada palavra e a chave que decifra cada olhar, esse que tão sem voz tanto diz.
Escrevo-te, para que saibas, que o lugar não importa quando divagamos juntos, que o amor é um lugar sem espaço nem tempo, insuficientes e curtos para cabermos lá dentro.
Escrevo-te, para que interiorizes, que neste passeio da vida, tudo o que nos diferencia é igualmente o que nos une e o que nos cobre, aos dois.
Escrevo-te, para te dizer, que na indesejável possibilidade de um dia te sentires nada, mostrar-te-ei o que não vês e o que faz de ti o tanto que és.
Escrevo-te, na esperança de conseguir exprimir um pequeno pedaço daquilo que sinto perante ti, mas na capacidade de compreender o poder do amor, aprendi que nessa tarefa o insucesso é garantido.
Ainda assim te escrevo, e te digo que a minha breve presença no mundo foi um projeto delineado com a tua imagem ao lado, pintado e desenhado para fazer dela uma eterna presença no mundo, um do outro.
E nesse mundo viveremos, para sempre.
Alguém sabe o quanto eu odeio bocados? Metades, intermédios, peças e quases?
Por fim te escrevo, confessando, que és o todo que sempre me faltou. E o tudo que finalmente, tenho.

quinta-feira, 1 de maio de 2014

brilho.

Todos dizem que eu estou diferente. Que esta diferença se nota no meu cabelo, nas minhas roupas, no meu andar, na minha maneira de encarar o mundo e na minha maneira de lidar com ele. Eu partilho da mesma opinião, mas só alguns, os mais atentos, muito poucos, se aperceberam que para além disso tudo a diferença está também nos meus olhos, e isso para mim é o mais difícil de mudar e corrigir.
Estou perante a maior oportunidade que a vida me deu para ser feliz, e estou a aproveitá-la o melhor que sei, cada vez melhor, porque todos os dias aprendo e no seguinte tento pôr essa aprendizagem em prática.
Eu gostava que cada um de nós conseguisse encontrar esse brilho em si próprio sem precisar da ajuda de outrem, esses são os seres que eu mais admiro. Mas nem sempre possível, para a maioria não é possível e para mim também não foi. Precisei de o encontrar. Primeiro no caminho oposto, e continuei a andar, desejando que um dia esses caminhos se cruzassem e pudéssemos, finalmente, andar lado a lado na mesma direcção. E foi já no final da esperança, no final da expectativa, quando eu quis finalmente pôr fim a uma história longa, espinhosa e para mim dolorosa que os caminhos se cruzaram e deram lugar a um só caminho.
Nesse dia ganhei brilho, Vida. Nesse dia as coisas mudaram e com elas eu também.
Quem me conhece continuo igual, há coisas que o amor nunca será capaz de alterar, precisamente por fazer parte dele.